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BELEZA E VERDADE
Com razão se enamoram de ti... (Ct 1,4)
Meditações espirituais de um coração enfermo de amor.
Como não se enamorar de Ti?
A Beleza sem a verdade é efêmera, não sobrevive ao tempo.
A beleza é essa “linguagem universal, que nos faz pensar e ser pensados pelo Criador. É a luz que nos dá lucidez, clarividência, visão clara e abrangente no claro-escuro e no fragmentário em que nos movemos, aos tropeços.”
Tu, Senhor, és a plenitude da Beleza e da Verdade. Verbo Eterno, no tempo encarnado, sempre Belo e Verdadeiro.
Mas por que o profeta referindo-se a Ti afirma: “não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar”? Não seria porque via refletido em Ti as nossas imperfeições? Não foste Tu quem perdeu a beleza, mas nossas imperfeições quem desfiguraram Tua carne, nos impedindo de enxergar Teu Coração que mesmo sofrendo nossas culpas, continuava com Beleza interior resplandecente. É com razão que afirmaste: “e, quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim”. Se por um momento Tua beleza manteve-se escondida e ofuscada ante nosso olhar, é para que pudéssemos ser atraídos a Ti. Configurastes-te a nós ficando “sem formosura” ao assumir nossa culpa, para que pudéssemos ser configurados à Ti, transfigurando-nos em Tua beleza.
A eternidade não apenas conhece tua beleza, mas autentica vossa Verdade. Pois, se fosses apenas Beleza sem Verdade, já não mais existirias. Todavia, sendo “sempre” Belo, revela-se também verdadeiro. Não apenas tens beleza, mas és a própria Beleza. Com razão se enamoram de ti...
Quem verdadeiramente ama permanece mergulhado no cálice da beleza, numa sóbria embriagues contemplativa.
Quem conseguiria resistir à Tua Beleza? “Privar-se da Beleza é enterrar-se vivo. É negar a nossa própria capacidade de transcendência e de encontro com o Todo” (Rodin). Teu encanto
canta a própria Verdade que és. Em ti não há utopia. Tua verdade é bela e libertadora. Quem a Ti conhece, torna-se livre, pois, és Verdade libertadora!
Eis o diferencial: quem se entrega à beleza ignorando a verdade, torna-se escravo daquela. Quem abraça as duas, por ambas torna-se verdadeiramente livre. Se a Beleza encontra seu sustento na Verdade, aquele que busca a Verdade encontrará também a Beleza.
A porta que se abre à Beleza perene chama-se Verdade.
Quem busca saciar sua sede na beleza temporal, engana-se e se perde! É por isso que São Boaventura comenta a respeito de São Francisco: “Contemplava nas coisas belas o Belíssimo e, seguindo o rastro impresso nas criaturas, buscava por todo lado o Amado”. “A beleza da criação reflete a infinita beleza do Criador.”Ou ainda, “a beleza das coisas criadas não pode saciar...”, embora tenha a capacidade de “suscitar aquela arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como Santo Agostinho, soube interpretar com expressões incomparáveis: ‘Tarde vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei!’.” É isto! Esse enamorado expressa a verdade: Beleza antiga e tão nova, isto é, Beleza duradoura que não se perde com tempo. Com razão se enamoram de ti!
O “belo” conjuga-se com o “verdadeiro” para produzir efeitos eternos. É pretérito perfeito e eterno presente. “A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração”.
Por que contentar-se com o crepitar da chama e não desejar ser por ela aquecido? Deslumbrar-se com suas cores e movimentos, e não descobrir o ardor de sua ardorosa presença? Enquanto Te deixas consumir num fogo de Amor incontido, marcas a minha alma. Assim como a pele exposta ao sol sofre a influência do calor, também minha alma deseja ser transformada pela exuberância de vossa Beleza. Sim, que a ardente Verdade que emana de Ti modele-me e me faça participante de vossa beleza! Com razão se enamoram de Ti!
O mundo criado é reflexo de Tua beleza e as criaturas trazem traços de eternidade, “pois foi a própria fonte da beleza que as criou” (Sb 13,3).
Mas, por que ao contemplar a criatura temos tanta dificuldade em reconhecer-Te refletido nela? E, sendo imagem e semelhança Tua, por que ela busca refúgio nas sombras?
Ora, uma maneira de reconhecer um objeto é através da luz projetada sobre esse. Se o objeto permanece na sombra, a visão não o define. E mesmo quando esse se apresenta à luz, apenas parte é iluminada. Enquanto de um lado do objeto os detalhes tornam-se nítidos, do outro, sob a ausência de luz, a visão permanece turva e indefinida.
Tu és a Luz que a tudo ilumina! Por ser Onipresente, conclui-se que a Tua Luz não é unifocal. Envolve-nos totalmente! E quando exposta a Ti, a alma torna-se inteiramente iluminada.
Também eu, obra de Tuas mãos, depois de ter escolhido andar na penumbra de minhas imperfeições, desejo ver-me iluminado por Ti, transfigurado em Tua Luz. Quem sabe assim poderão contemplar-Te em mim, pois “a grandeza e a beleza das criaturas levam, por analogia, à contemplação de seu Autor” (Sb 13,5). É Tua luz que me revela realmente quem eu sou.
Tua Beleza ordena todas as coisas. Basta uma palavra Tua para que tudo se ordene e ganhe beleza. “A terra era sem forma e vazia” (Gn 1,2), isto é, sem beleza.
Mas que forma deveria ter a obra de Tuas mãos? E se essa permanece vazia, para que viria servir? Ao som de Tua voz destes ordem, beleza e sentido aquilo que era apenas abismo! Mais que isto, deixastes rastros de Tua presença e reflexos de formosura em cada uma das obras de Tuas mãos.
Beleza e ordem são duas impressões de uma mesma Verdade. A Beleza não se perde na ausência da ordem, mas não pode manifestar-se plenamente, pois, sua epifania encontra complemento na ordem.
Colocar em ordem é tornar belo. Ora, a beleza criada por Tuas Palavras somente pode ser contemplada por estar dentro de uma ordem. Fora de ordem a beleza se refugia...
De fato, como poderíamos contemplar a beleza das flores se antes não houvesses criado a luz? Ou, onde viveriam os peixes se antes não criasses as águas? A lua e as estrelas ajudam iluminar a noite e podem ser contempladas, mas é preciso que o sol ceda lugar, segundo a ordem da criação.
Com razão se enamoram de ti... (Ct 1,4)
O Amor ama e se deixa amar! O Amor é atraente, conquista e se deixa conquistar. Não se omite nem se esconde. Quando aparenta estar escondido é porque deseja ser encontrado. Quando encontrado, se entrega por completo. Ele não é limitado nem inconstante. Sempre está disponível. Quando o recusam, Ele insiste e não se cansa. Com razão se enamoram de ti...
Deveria eu procurar-te e correr ao teu encontro... Mas por que não o faço? Por que pareço estar mais interessado na imagem refletida que na original? Perco-me constantemente em miragens e afasto-me da realidade que a tudo transcende. Caminho devagar por sentir-me inseguro. As vezes prefiro ver minhas pegadas apagadas... nesses momentos rezo pedindo ao irmão vento que dissipe meus rastros.
Arraste-me contigo, corramos! (Ct 1,4) Deixemos rastros de certeza, setas que indiquem o caminho para onde me conduzes. Arranque-me de meus apegos, daquilo que pesa e me prende. Desloque-me da condição morosa, da indeterminação e falta de ascese. Arraste-me contigo, pois, sozinho não chegarei a tempo... Corramos, o tempo é breve, o caminho é longo, o dia belo e eterno já vai amanhecer.
A alma deseja encontrar-se com o Amado. E encontrando-o, deseja entregar-se livremente. Embora a “vontade” desperte o estímulo, falta-lhe algo que lhe mova com ligeireza. Alguém que lhe arraste quebrando as resistências externas, pois as interiores ela o deverá fazê-lo, em sua liberdade recebida. Sim, é o encontro dos desejos: da amada que deseja chegar logo nos aposentos do rei, e do Amado que deseja recebê-la por inteiro, por isso estende-lhe a mão para arrastá-la e trazê-la para junto de si.
Como não se enamorar de Ti?
Rogério Soares
RCCBRASIL
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