Doutrina e Espiritualidade

BELEZA E VERDADE

Com razão se enamoram de ti... (Ct 1,4)

Meditações espirituais de um coração enfermo de amor.

 

Como não se enamorar de Ti?

 

A Beleza sem a verdade é efêmera, não sobrevive ao tempo.

A beleza é essa “linguagem universal, que nos faz pensar e ser pensados pelo Criador. É a luz que nos dá lucidez, clarividência, visão clara e abrangente no claro-escuro e no fragmentário em que nos movemos, aos tropeços.”[1]

 

Tu, Senhor, és a plenitude da Beleza e da Verdade.  Verbo Eterno, no tempo encarnado, sempre Belo e Verdadeiro.

 

Mas por que o profeta referindo-se a Ti afirma: “não tinha beleza nem esplendor que pudesse atrair o nosso olhar, nem formosura capaz de nos deleitar”[2]? Não seria porque via refletido em Ti as nossas imperfeições? Não foste Tu quem perdeu a beleza, mas nossas imperfeições quem desfiguraram Tua carne, nos impedindo de enxergar Teu Coração que mesmo sofrendo  nossas culpas, continuava com Beleza interior resplandecente. É com razão que afirmaste: “e, quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim”[3]. Se por um momento Tua beleza manteve-se escondida e ofuscada ante nosso olhar, é para que pudéssemos ser atraídos a Ti. Configurastes-te a nós ficando “sem formosura” ao assumir nossa culpa, para que pudéssemos ser configurados à Ti, transfigurando-nos em Tua beleza.

 

A eternidade não apenas conhece tua beleza, mas autentica vossa Verdade. Pois, se fosses apenas Beleza sem Verdade, já não mais existirias. Todavia, sendo “sempre” Belo, revela-se também verdadeiro. Não apenas tens beleza, mas és a própria Beleza. Com razão se enamoram de ti...

 

Quem verdadeiramente ama permanece mergulhado no cálice da beleza, numa sóbria embriagues  contemplativa.

 

Quem conseguiria resistir à Tua Beleza?  “Privar-se da Beleza é enterrar-se vivo. É negar a nossa própria capacidade de transcendência e de encontro com o Todo” (Rodin). Teu encanto

canta a própria Verdade que és. Em ti não há utopia. Tua verdade é bela e libertadora. Quem a Ti conhece, torna-se livre, pois, és Verdade libertadora!

 

Eis o diferencial: quem se entrega à beleza ignorando a verdade, torna-se escravo daquela. Quem abraça as duas, por ambas torna-se verdadeiramente livre. Se a Beleza encontra seu sustento na Verdade, aquele que busca a Verdade encontrará também a Beleza.

 

A porta que se abre à Beleza perene chama-se Verdade.

 

Quem busca saciar sua sede na beleza temporal, engana-se e se perde! É por isso que São Boaventura comenta a respeito de São Francisco: “Contemplava nas coisas belas o Belíssimo e, seguindo o rastro impresso nas criaturas, buscava por todo lado o Amado”[4]. “A beleza da criação reflete a infinita beleza do Criador.”[5]Ou ainda, “a beleza das coisas criadas não pode saciar...”[6], embora tenha a capacidade de “suscitar aquela arcana saudade de Deus que um enamorado do belo, como Santo Agostinho, soube interpretar com expressões incomparáveis: ‘Tarde vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde vos amei!’.”[7] É isto! Esse enamorado expressa a verdade: Beleza antiga e tão nova, isto é, Beleza duradoura que não se perde com tempo. Com razão se enamoram de ti!

 

O “belo” conjuga-se com o “verdadeiro”[8] para produzir efeitos eternos. É pretérito perfeito e eterno presente. “A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração”[9].

 

Por que contentar-se com o crepitar da chama e não desejar ser por ela aquecido? Deslumbrar-se com suas cores e movimentos, e não descobrir o ardor de sua ardorosa presença? Enquanto Te deixas consumir num fogo de Amor incontido, marcas a minha alma. Assim como a pele exposta ao sol sofre a influência do calor, também minha alma deseja ser transformada pela exuberância de vossa Beleza. Sim, que a ardente Verdade que emana de Ti modele-me e me faça participante de vossa beleza! Com razão se enamoram de Ti!

 

O mundo criado é reflexo de Tua beleza e as criaturas trazem traços de eternidade, “pois foi a própria fonte da beleza que as criou” (Sb 13,3).

 

Mas, por que ao contemplar a criatura temos tanta dificuldade em reconhecer-Te refletido nela? E, sendo imagem e semelhança Tua, por que ela busca refúgio nas sombras?

 

Ora, uma maneira de reconhecer um objeto é através da luz projetada sobre esse. Se o objeto permanece na sombra, a visão não o define. E mesmo quando esse se apresenta à luz, apenas parte é iluminada. Enquanto de um lado do objeto os detalhes tornam-se nítidos, do outro, sob a ausência de luz, a visão permanece turva e indefinida.

 

Tu és a Luz que a tudo ilumina! Por ser Onipresente, conclui-se que a Tua Luz não é unifocal. Envolve-nos totalmente! E quando exposta a Ti, a alma torna-se inteiramente iluminada.

 

Também eu, obra de Tuas mãos, depois de ter escolhido andar na penumbra de minhas imperfeições, desejo ver-me iluminado por Ti, transfigurado em Tua Luz. Quem sabe assim poderão contemplar-Te em mim, pois “a grandeza e a beleza das criaturas levam, por analogia, à contemplação de seu Autor” (Sb 13,5). É Tua luz que me revela realmente quem eu sou[10].

 

 

 

Tua Beleza ordena todas as coisas. Basta uma palavra Tua para que tudo se ordene e ganhe beleza. “A terra era sem forma e vazia” (Gn 1,2), isto é, sem beleza.

 

Mas que forma deveria ter a obra de Tuas mãos? E se essa permanece vazia, para que viria servir? Ao som de Tua voz destes ordem, beleza e sentido aquilo que era apenas abismo! Mais que isto, deixastes rastros de Tua presença e reflexos de formosura em cada uma das obras de Tuas mãos.

 

Beleza e ordem são duas impressões de uma mesma Verdade. A Beleza não se perde na ausência da ordem, mas não pode manifestar-se plenamente, pois, sua epifania encontra complemento na ordem.

 

Colocar em ordem é tornar belo. Ora, a beleza criada por Tuas Palavras somente pode ser contemplada por estar dentro de uma ordem. Fora de ordem a beleza se refugia...

 

De fato, como poderíamos contemplar a beleza das flores se antes não houvesses criado a luz? Ou, onde viveriam os peixes se antes não criasses as águas? A lua e as estrelas ajudam iluminar a noite e podem ser contempladas, mas é preciso que o sol ceda lugar, segundo a ordem da criação.

 

Com razão se enamoram de ti... (Ct 1,4)

 

O Amor ama e se deixa amar! O Amor é atraente, conquista e se deixa conquistar. Não se omite nem se esconde. Quando aparenta estar escondido é porque deseja ser encontrado. Quando encontrado, se entrega por completo. Ele não é limitado nem inconstante. Sempre está disponível. Quando o recusam, Ele insiste e não se cansa. Com razão se enamoram de ti...

 

Deveria eu procurar-te e correr ao teu encontro... Mas por que não o faço? Por que pareço estar mais interessado na imagem refletida que na original? Perco-me constantemente em miragens e afasto-me da realidade que a tudo transcende. Caminho devagar por sentir-me inseguro. As vezes prefiro ver minhas pegadas apagadas... nesses momentos rezo pedindo ao irmão vento que dissipe meus rastros.

 

Arraste-me contigo, corramos! (Ct 1,4) Deixemos rastros de certeza, setas que indiquem o caminho para onde me conduzes. Arranque-me de meus apegos, daquilo que pesa e me prende. Desloque-me da condição morosa, da indeterminação e falta de ascese. Arraste-me contigo, pois, sozinho não chegarei a tempo... Corramos, o tempo é breve, o caminho é longo, o dia belo e eterno já vai amanhecer.

 

A alma deseja encontrar-se com o Amado. E encontrando-o, deseja entregar-se livremente. Embora a “vontade” desperte o estímulo, falta-lhe algo que lhe mova com ligeireza. Alguém que lhe arraste quebrando as resistências externas, pois as interiores ela o deverá fazê-lo, em sua liberdade recebida. Sim, é o encontro dos desejos: da amada que deseja chegar logo nos aposentos do rei, e do Amado que deseja recebê-la por inteiro, por isso estende-lhe a mão para arrastá-la e trazê-la para junto de si.

 

Como não se enamorar de Ti?

 

 

 

Rogério Soares

RCCBRASIL



[1] Frei Dino Costa,OFM

[2] Is 53,2

[3] Jo 12,32

[4] Legenda maior, IX, 1: Fonti francescane, n. 1162 (Pádua 1982), p. 911

[5] CIC 341

[6] João Paulo II, Carta aos Artistas, n. 16

[7] Ibidem

[8] Cf. João Paulo II, Carta aos Artistas, n. 8

[9] Idem, n. 11

[10] Música “Um passo mais”, Juninho Cassimiro – Banda Arkanjos